Por que é tão difícil parar de fumar: nicotina e dependência

Por que é tão difícil parar de fumar: nicotina e dependência

O que causa a dependência do cigarro?
Não apenas no cigarro, mas em todos os derivados do tabaco (cigarro, charuto, cachimbo, cigarro de palha, narguilé, entre outros) existe uma substância que se chama nicotina, e é o que causa a dependência. Mesmo sendo uma droga liberada para o consumo, não significa que não faz mal a saúde; a dependência à nicotina é incluída na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde - (CID). Da mesma forma que drogas como a cocaína, por exemplo, a nicotina também é uma substância psicoativa e produz alterações no Sistema Nervoso Central influenciando o estado emocional da pessoa, mesmo que cada uma delas produza sensações diferentes. Entre 7 a 19 segundos depois de inalada, a nicotina alcança o cérebro e libera várias substâncias que são responsáveis por estimular a sensação de prazer, explicando-se assim as boas sensações que o fumante sente ao fumar. Como agravante, com a inalação contínua da nicotina, o cérebro se adapta e passa a precisar de doses cada vez maiores para manter o mesmo nível de satisfação que tinha no início. Esse efeito é chamado de tolerância à droga. Com o passar do tempo, o fumante tem necessidade de consumir cada vez mais cigarros. Por isso, para se conseguir parar de fumar, deve-se abandonar totalmente o cigarro. Apenas diminuir a quantidade não traz sucesso na abordagem.

Quais os sintomas de abstinência do cigarro? Quanto tempo demora para passar?
É normal, que ao parar de fumar, os primeiros dias sem cigarros sejam os mais difíceis, porém as dificuldades tendem a ser menores com o tempo. Quando o fumante para de fumar, pode apresentar alguns sintomas desagradáveis, tais como: dor de cabeça, tonteira, irritabilidade, agressividade, alteração do sono, dificuldade de concentração, tosse, indisposição gástrica e outros. Esses sintomas caracterizam a síndrome de abstinência da nicotina, porém, não acontecem com todos os fumantes que resolvem parar de fumar. Quando surge esses sintomas, eles tendem a desaparecer em uma a duas semanas (alguns casos podem chegar a quatro semanas).

Alguns dos sintomas, como dor de cabeça, tonteira e tosse são sinais do restabelecimento do organismo. O sintoma mais intenso, e mais difícil de lidar, é a chamada "fissura" (grande vontade em fumar). É importante saber que a “fissura" geralmente não dura mais que 5 minutos. Com o passar do tempo, a intensidade desses episódios vão reduzindo gradativamente, e o intervalo entre eles se espaçando, até deixar de existir.

Mesmo fumantes que já fizeram várias tentativas mas voltaram a fumar, podem conseguir parar em definitivo?
Sim. Já é esperado que a pessoa faça mais de uma tentativa antes de parar definitivamente. O quadro de dependência resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo para consumir a droga, estabelecendo-se assim um padrão de autoadministração caracterizado pela necessidade tanto física quanto psicológica da substância, apesar do conhecimento de seus efeitos prejudiciais à saúde.

Estudos mostram que em média um ex-fumante tenta parar de fumar entre três a quatro vezes até conseguir definitivamente. A cada tentativa, se conhece as maiores dificuldades e aprende-se a controlá-las, sem precisar do cigarro. Por exemplo: você resolve parar de fumar, e ao estar diante de uma situação de estresse, pensa em fumar um cigarro como solução para se acalmar. Com o tempo você vai aprendendo que, além do cigarro não resolver seus problemas, ele está tirando sua saúde.

Como lidar com a recaída?
A recaída se caracteriza pelo retorno ao consumo de cigarros após parar de fumar. Na condição de tabagista, o paciente vai ao longo de sua vida estabelecendo associações com seu cotidiano e o comportamento de fumar. Ao deixar de fumar e realizar determinadas ações que se tornaram condicionamentos, o desejo de fumar poderá surgir e a recaída ocorrer. A manutenção de uma mudança pode exigir a construção de um conjunto de habilidades e estratégias diferentes daquelas que foram inicialmente necessárias para a obtenção da mudança. Se a recaída ocorrer não deve ser encarada como fracasso. Comece tudo novamente e procure ficar mais atento ao que fez você voltar a fumar. Dê-se várias chances até conseguir.

Parar de fumar engorda ou é mito?
A preocupação com o ganho de peso é uma das maiores barreiras para que alguns fumantes tomem a decisão de parar de fumar, ou recaiam após terem parado de fumar. É importante entender que, geralmente, o ganho de peso após a cessação do tabagismo é temporário, sendo que na maioria dos casos, ocorre nos primeiros meses pós-cessação. Portanto, se a fome aumentar, não se assuste, é normal um ganho de peso, pois seu paladar vai melhorando e o metabolismo se normalizando.

De qualquer forma, procure não comer mais do que o de costume e você não irá engordar. Evite doces e alimentos gordurosos. Mantenha uma dieta equilibrada com alimentos naturais e de baixa caloria, frutas, verduras e legumes. Faça atividade física, pois ajuda no controle do peso. Beba sempre muito líquido, de preferência água e sucos naturais. No início, evite café e bebidas alcoólicas, pois eles estimulam a vontade de fumar.

De que forma os remédios ajudam a parar de fumar? Eles são importantes?
O uso de medicamentos tem um papel bem definido no processo de cessação do tabagismo, que é o de minimizar os sintomas da síndrome de abstinência à nicotina, facilitando a abordagem intensiva do tabagista. Medicamentos não devem ser utilizados isoladamente, e sim em associação com uma boa abordagem. Dessa forma, o tabagista sente menos ansiedade ao parar de fumar, e consegue ficar mais confiante para por em prática as orientações recebidas durante as sessões da abordagem intensiva. Os medicamentos disponibilizados pelo Ministério da Saúde para o tratamento do tabagismo na Rede do SUS são: Terapia de Reposição de Nicotina, através do adesivo transdermico, goma de mascar e pastilha, e o Cloridrato de Bupropiona.

Em quanto tempo o pulmão de um ex-fumante volta a ficar "limpo"?
Considera-se como ex-fumante o indivíduo que tiver parado de fumar há, no mínimo, cinco anos. Algumas alterações nos pulmões, em consequência do tabagismo, serão irreversíveis como, por exemplo, o enfisema pulmonar e o próprio câncer, no caso de já terem se instalado. Nos casos de bronquite crônica, pode-se ter uma diminuição acentuada dos sintomas com a cessação do tabagismo.

Quais os benefícios ao parar de fumar? O que muda dia a dia na vida da pessoa?
Além das doenças já citadas acima, é importante frisar que os fumantes adoecem com uma frequência duas vezes maior que os não fumantes. Também têm menor resistência física, menos fôlego e pior desempenho nos esportes e na vida sexual do que aqueles que não fumam. Além disso envelhecem mais rapidamente e ficam com os dentes amarelados, cabelos opacos, pele enrugada e impregnada pelo odor do fumo. Com a dependência somando os anos de tabagismo, cresce também o risco de se contrair doenças crônicas, que podem levar à invalidez e inclusive, à morte.

Entretanto, parar de fumar sempre vale a pena em qualquer momento da vida, mesmo que o fumante já esteja com alguma doença causada pelo cigarro, tais como câncer, enfisema ou derrame. A qualidade de vida melhora muito. Veja o que acontece se você parar de fumar agora:

Após 20 minutos, a pressão sanguínea e a pulsação voltam ao normal.

Após 2 horas, não há mais nicotina circulando no sangue.

Após 8 horas, o nível de oxigênio no sangue se normaliza.

Após 12 a 24 horas, os pulmões já funcionam melhor.

Após 2 dias, o olfato já percebe melhor os cheiros e o paladar fica mais aguçado.

Após 3 semanas, a respiração se torna mais fácil e a circulação melhora.

Após 1 ano, o risco de morte por infarto do miocárdio é reduzido à metade.

Após 10 anos, o risco de sofrer infarto será igual ao das pessoas que nunca fumaram.

Quanto mais cedo você parar de fumar menor o risco de adoecer.

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Fonte: Inca, Ministério da Saúde, livro Medicina Mitos e Verdades (Carla Leonel) - capítulo de pneumologia: médico responsável: Prof. Dr. Francisco Vargas.