Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que o zumbido, conhecido cientificamente como tinnitus, atinge 278 milhões de pessoas de todas as faixas etárias no mundo inteiro, sendo que no Brasil, 28 milhões de pessoas sofrem com o problema. O zumbido quase sempre significa uma disfunção do aparelho auditivo, em que há a geração de um som constante ou que vai e volta, sem a presença do estímulo externo. Na maioria das vezes, a lesão está localizada no ouvido interno ou nervo auditivo e, menos frequentemente, dentro das vias auditivas do sistema nervoso central.

Segundo o Prof. Oswaldo Laércio M. Cruz, autor do capítulo de otorrinolaringologia do livro Medicina, Mitos e Verdades (Carla Leonel), várias são as causas do zumbido e normalmente são as mesmas das doenças que causam perda auditiva, tais como:
• Herança genética;
• Distúrbios circulatórios (hipertensão arterial, o diabetes, a arteriosclerose, e a hipercolesterolemia que é o aumento do colesterol no sangue);
• Distúrbios metabólicos: especialmente da glicose, triglicerídeos e hormônios tireoidianos podem causar ou acentuar o zumbido;
• Distúrbios hormonais;
Doenças autoimunes (artrite reumatoide, o lúpus eritematoso sistêmico e as vasculites);
• Remédios ototóxicos (tóxico para o ouvido), entre eles: ácido acetilsalicílico (aspirina), anti-inflamatórios, certos antibióticos e alguns antidepressivos.  Antibióticos como garamicina, estreptomicina e amicacina, medicamentos à base de quinino e agentes quimioterápicos são os principais exemplos dessas substâncias;
• Trauma acústico.

O otorrino lembra ainda que o estresse físico e emocional, com muita frequência, aumenta de forma importante a intensidade do zumbido. Assim, na maioria das vezes, o zumbido não significa nada de grave, podendo, frequentemente, ser atenuado com a identificação e o tratamento da sua causa.  Mais raramente, o zumbido poderá ser originado por lesões dentro do sistema nervoso central, como esclerose múltipla e aneurismas.

O exame otorrinolaringológico e o audiológico, seguidos por estudo de imagem se necessário, podem identificar com bastante exatidão a localização da lesão geradora do zumbido e definir a melhor maneira de tratá-lo.

ZUMBIDO NO TRABALHADOR EXPOSTO AO RUÍDO
De acordo com a Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (Sandra Regina WeberI e Eduardo PéricoI) a incidência em nível mundial deverá crescer, considerando-se o aumento da idade da população, a crescente exposição ao ruído, o estilo de vida (hábitos alimentares, sobrecarga de trabalho, estresse), a ansiedade e a depressão. As pesquisas com populações expostas ao ruído mostram grande variabilidade na prevalência do zumbido que pode ser atribuída aos métodos de pesquisa, à subjetividade do sintoma e à definição de zumbido.

A amostra constituiu-se de 42 indivíduos, com mais homens do que mulheres. Porém, analisando o total de homens e mulheres na empresa, encontrou-se maior percentual de mulheres do que de homens. Segundo a literatura, a prevalência do zumbido é maior em homens e aumenta com a idade. Considerando que a faixa etária média (35 anos e cinco meses) encontrada para as mulheres foi maior, esta poderia ser a justificativa para o maior percentual de mulheres com zumbido neste estudo.

Foi encontrada média de tempo de exposição ao ruído de três anos e oito meses e média de tempo de percepção do zumbido de três anos e sete meses. Segundo outros autores, entre o início da exposição ao ruído ocupacional e o início do zumbido de origem ocupacional, em geral, há um intervalo longo, de muitos anos; diferente de um zumbido provocado por trauma acústico ou por exposição à música excessivamente amplificada. Ou seja, para os autores, é incomum a relação direta entre o início de exposição a ruído ocupacional e o início do zumbido.

A literatura concorda com a estreita associação entre zumbido e perda auditiva, considerando que a maioria dos indivíduos com zumbido, em torno de 85%, tem algum grau de perda auditiva e somente oito a 10% dos indivíduos apresentam audiometria normal. Este estudo mostrou que 50% dos trabalhadores com zumbido não apresentaram perda auditiva, diferindo de outro, em que 71% dos trabalhadores apresentaram limiares audiométricos inferiores a 25 dB NA nas frequências de 0,25 a 8 kHz.

Deve-se considerar que uma lesão difusa, de até 30% nas células ciliadas externas (CCEs), não teria impacto significativo nos limiares audiométricos, seria uma lesão sem representação na audiometria convencional. Além disso, os efeitos do ruído no sistema auditivo não estão limitados apenas à injúria coclear; a exposição ao ruído aumenta a concentração de cálcio citoplasmático nas CCEs, aumenta a liberação de glutamato (neurotransmissor excitatório da via auditiva) e aumenta a atividade neural das fibras aferentes, podendo levar ao zumbido.

Estudos com animais mostraram complexas modificações no sistema auditivo central, no colículo inferior, no corpo geniculado medial e no córtex auditivo primário. Há evidências de que a exposição a som intenso leva à hiperatividade do núcleo coclear dorsal (primeiro núcleo da via auditiva). Esta hiperatividade é contínua e gradual, desencadeando mudanças em toda a via tonotópica mesmo depois de cessada a exposição ao som, podendo estar relacionada ao zumbido.

A ocorrência de PAIR foi constatada em 33,3% dos indivíduos e as medianas encontradas neste estudo, assim como em outro similar, apresentaram alterações mínimas, com limiares em torno de 30 dB (NA), limitadas a 3, 4 e 6 kHz. A desvantagem provocada pelo zumbido pode ser muito maior do que uma pequena perda auditiva nas frequências agudas, especialmente para indivíduos jovens. A multiplicidade de fatores (causas metabólicas, odontológicas, farmacológicas, cardiovasculares, psicológicas, neurológicas, dentre outras) e a possibilidade de interação entre as diversas causas dificultam a tarefa de determinar a causa do zumbido. O indivíduo pode ser portador de uma doença que cause zumbido sem que essa relação causal tenha sido determinada. Além disso, um fator etiológico pode não ser suficiente para desencadear o zumbido, mas sim vários fatores atuando sinergicamente.

Ao avaliar a interferência do zumbido nas atividades diárias de pacientes do Ambulatório de Zumbido, outros autores, encontraram interferência no sono como a mais referida, seguida da capacidade de concentração, equilíbrio emocional e restrição da atividade social. Neste estudo, a capacidade de concentração foi a interferência mais referida, seguida do sono, equilíbrio emocional e atividade social. Trata-se de populações distintas; na primeira, pacientes de um centro de referência na avaliação e tratamento do zumbido e na segunda, trabalhadores que foram avaliados em seu local de trabalho e cujos percentuais encontrados interrogam sobre a necessidade de alguma intervenção.

O início do zumbido foi apontado como progressivo para a maioria dos indivíduos, e com percepção há menos de cinco anos. Destes, 19% têm percepção precoce do zumbido, ou seja, há menos de um ano. Achados muito semelhantes aos de outro estudo que também encontrou 19% dos indivíduos com percepção do zumbido há menos de um ano e, 67% com percepção entre um e cinco anos. A localização do zumbido é predominantemente bilateral, seguida da orelha esquerda, coincidindo com outros achados.

A exposição a som ambiental foi o fator de melhora mais apontado pelos indivíduos. Protocolos de reabilitação como Tinnitus Retraining Therapy preconizam o uso de enriquecimento sonoro. De uma forma geral, todos os pacientes são orientados a evitar o silêncio, a fim de diminuir a atenção e a percepção do zumbido, reduzir sua intensidade e oferecer um som menos intrusivo. Empiricamente, 42,9% dos indivíduos já haviam percebido este benefício. Outros 50% não apontaram nenhum fator de melhora.

O estresse e o barulho, assim como o silêncio, foram os fatores mais citados para piora do zumbido. Para alguns pacientes o zumbido piora após exposição ao ruído. Esta diferença carece de entendimento e deve ser considerada numa abordagem terapêutica. Considerando que a população estudada faz uso regular de protetor auricular e trabalha exposta ao ruído, analisamos se os indivíduos que fizeram esta referência encontram-se nos setores de ruído mais intenso. O teste G não mostrou diferença significativa.

Outros autores realizaram a identificação de indivíduos com zumbido em subgrupos, a partir da análise de aglomerados. Encontraram inicialmente quatro subgrupos: constante incômodo com o zumbido, piora do zumbido no ruído, zumbido não influenciado pelo sistema somatossensorial, piora do zumbido no silêncio. Incluir o indivíduo com zumbido em uma destas quatro categorias pode ser uma importante ferramenta para otimizar a abordagem terapêutica e planejar ações profiláticas.

O estresse foi apontado como fator de piora do zumbido. Vários fatores cotidianos estão relacionados ao estresse. A própria exposição ao ruído e às suas características desagradáveis pode estar relacionada ao estresse. O ruído é um agente de estresse psicossocial, que ativa o sistema endócrino e o sistema nervoso autônomo (simpático). Os efeitos da exposição não ocorrem somente diante de níveis de ruído intenso, mas também, em ambientes de ruído pouco intenso, quando há necessidade, por exemplo, de concentração. Conforme o modelo neurofisiológico do zumbido, ele ativa outros sistemas, como o sistema límbico e o sistema nervoso autônomo, levando ao incômodo e ao estresse. Uma vez ativado este mecanismo, o zumbido aumenta o estresse e, de maneira recíproca, o estresse aumenta o zumbido.

O zumbido inicia-se como uma percepção auditiva e, a persistência desta percepção, frequentemente, está associada a desordens de atenção e a problemas emocionais. O indivíduo passa a focar sua atenção no zumbido, desenvolvendo problemas de concentração. A percepção continuada do zumbido leva ao incômodo, frustração, medo, ansiedade e depressão. A associação de dificuldade de atenção e desordens emocionais culminaria com distúrbios do sono e um impacto ainda maior na qualidade de vida do indivíduo. Desta forma, os três componentes básicos do zumbido seriam: auditivo, atencional e emocional.

Considerando-se que foi encontrada perda auditiva em 50% da amostra estudada, foram realizadas análises a fim de investigar diferenças entre os indivíduos com perda auditiva e sem perda auditiva. Não foram encontradas diferenças significativas para média do tempo de exposição ao ruído, sensação de plenitude auricular, tontura, sensibilidade auditiva e severidade do zumbido. Esta homogeneidade não se confirmou para a questão tempo de exposição ao ruído e tempo de percepção do zumbido. Nos indivíduos sem perda auditiva, encontrou-se diferença significativa entre tempo de exposição ao ruído e tempo de percepção do zumbido, indicando haver relação entre as variáveis. Deve-se considerar, por um lado, autores que sugerem haver um intervalo longo entre o início da exposição ao ruído ocupacional e o início do zumbido de origem ocupacional. Por outro lado, há que se valorizar o fato de que os efeitos do ruído podem ser imediatos à exposição, acarretando mudanças no sistema auditivo central, progressivas e gradativas, que podem estar relacionadas ao zumbido. Neste estudo, encontramos uma correlação entre tempo de exposição ao ruído e tempo de percepção do zumbido, nos indivíduos sem perda auditiva, apontando para um possível efeito do ruído não limitado ao sistema auditivo periférico.

CONCLUSÃO
A ausência de perda auditiva em metade dos indivíduos estudados e a correlação entre tempo de exposição ao ruído e tempo de percepção do zumbido nestes indivíduos, aponta para um possível efeito do ruído não limitado ao sistema auditivo periférico. A similaridade entre os indivíduos com e sem perda auditiva quanto a diversas variáveis testadas (sensação de plenitude auricular, tontura, sensibilidade auditiva, média do tempo de exposição ao ruído e severidade do zumbido) indica a necessidade de incluir o tema zumbido nos programas de conservação auditiva.

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