Sites de relacionamentos: por que os pretendentes somem?

Sites de relacionamentos: por que os pretendentes somem?

Por que os pretendentes somem? O lado cruel do match e crush do mundo virtual é o tema deste artigo. Aplicativos como Tinder, Happn, sites de relacionamentos, redes sociais tem se tornado uma ferramenta cada vez mais frequente para ampliar o contato entre as pessoas na busca pelo par perfeito. As possibilidades são diárias, se multiplicam, triplicam numa velocidade incrível. A grande maioria, dificilmente se conheceria sem as facilidades oferecidas por estes meios. Porém, apesar das aparências e do jogo amoroso ser atrativo, pode representar uma grande armadilha caso a pessoa não consiga distinguir "o ouro verdadeiro do falso brilho da bijuteria".

Esses recursos parecem funcionar como uma “fábrica de esperança” para solteiros, separados, além dos casados e namorados insatisfeitos com a sua condição. Encontros, desencontros, alegrias e tristezas, ilusão e desilusão, euforia e depressão são alguns dos sentimentos experimentados aos adeptos dessa nova tecnologia.

O sumiço do pretendente é frequente e pode ocorrer sem dó nem piedade, como se pessoas fossem descartáveis, líquidas, e escorressem facilmente pelo ralo. O motor mais atraente para a desistência é a ânsia de explorar a grande oferta de gente em “liquidação”. Prontas para serem adquiridas, experimentadas e, se não cair bem ou enjoar, trocada por outras, por várias mais caras ou mais baratas... não importa. Por isso, todo cuidado é pouco. Principalmente, para quem usa estas ferramentas de forma genuína.

A psicóloga e psicanalista, Tere Yadid Sztokbant, autora do livro Escolhas e Relações Amorosas, esclarece a dinâmica deste mundo virtual.

Relações virtuais podem dar certo?

Pode sim dar certo. Tenho amigos e pacientes que construíram relacionamentos amorosos verdadeiros, a partir de encontros e reencontros virtuais. O que não quer dizer ser fácil. Com tanta gente inscrita em aplicativos (na casa dos milhões), a chance entre duas pessoas combinarem seus anseios, princípios, desejos e disponibilidade de tempo, pode exigir uma busca mais refinada. É preciso uma dose de coragem para lidar com a vergonha e exposição, condições importantes para esta empreitada. A perseverança conta pontos diante da coleção de frustrações que muitas vezes acontece. Até porque a escolha é uma via de mão dupla, ou seja, ambos os parceiros devem se gostar.

Nesta linha, os desencontros e desapontamentos encontram seu lugar: “quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora”.

Quais os riscos emocionais e as desvantagens na escolha do pretendente por meio do mundo virtual?

Aplicativos e sites de relacionamentos amorosos oferecem um verdadeiro cardápio de gente: namoro com compromisso, namoro sem compromisso, casamento, amizade colorida, companhia, novos amigos, sexo fácil, sexo descartável, casados procurando amante discreta etc...

Apesar de fotos pessoais serem exibidas pela grande maioria do público, no mundo digital é comum alguns se comportarem como se estivessem no anonimato.

Um ninguém que não conhece ninguém afrouxa a moral, abrindo espaço para aspectos perversos da personalidade se manifestar sem pudor. Facilmente alguém estabelece uma dinâmica sádica quando reconhece um masoquista. Para um desconhecido escreve-se, fala-se, promete-se qualquer coisa sem nenhum constrangimento ou comprometimento.

Alguns homens após a separação, emagrecem, renovam o guarda roupa, trocam de carro e, sentindo-se renovados, fazem uma verdadeira coleção de fãs que conhecem virtualmente. Chegam a planejar o futuro, apresenta-las para família e depois, desaparecem. Um comportamento que alterna o Complexo de Dom Juan e de Peter Pan.

Relatam conquistas e abandonos sem compaixão pelo sofrimento que causam em suas “presas”, nem pelo transtorno que causam na vida delas. Esses homens, ao agirem de forma dissimulada, visando apenas extrair prazeres das paixões que despertam, mentindo, manipulando pretendentes sem empatia e culpa, apresentam o mesmo tipo de comportamento dos psicopatas. Alguns até são mesmo.

Muitos adotam tal conduta como sendo algo natural e corriqueiro deste tipo de encontro. Desta forma (independente do gênero e da orientação sexual), pessoas descartam pretendentes sem aviso prévio após dias de conversa ou depois do primeiro ou mais encontros.

Mensagens deixam de ser respondidas e, se o outro insistir, será bloqueado. Motivos? Qualquer um. Existem dezenas de pretendentes no “cardápio de gente”.

É possível tirar conclusões do pretendente no primeiro encontro?

O primeiro café ou jantar revelam muito pouco da essência de cada um. Parece-me, a descrição de um encontro de pavões. Evita-se mostrar-se de fato, como um ser humano passível de falhas, inseguro ou com medos. Pelo contrário!

A autovalorização defensiva torna-se demasiada, quando o objetivo passa a ser convencer o “cliente” do valor especialmente vantajoso de seu “produto”.

Nesse momento, do encontro de egos inflados, o verdadeiro eu da pessoa não aparece, nem se abre para uma escuta sensível e trocas genuínas. Um jogo de sedução que visa encontrar no outro apenas o reflexo de seu próprio desejo. Nesse caso, o fracasso é quase sempre inevitável.

Por que os pretendentes somem?

Diante do mercado tão vasto de gente disponível procurando por um par, sujeitos adquirem um status de coisa. A voracidade e o desejo de completude imperam nesse universo: há de se encontrar a alma gêmea, o par perfeito, a tampa da panela, a metade da laranja.

Uma história narra bem a dinâmica dos aplicativos de relacionamentos.

Havia um lugar com salas que ofereciam determinado tipo de parceiro. Cada pessoa poderia entrar uma única vez nesse lugar e, se seguisse adiante, não teriam a chance de recuar.

A primeira sala oferecia um homem bonito e inteligente. Se a mulher o aceitasse, iria conhecê-lo para ver se era do seu agrado. Curiosa, cada uma das mulheres que por lá passaram, optou em prosseguir.

Na segunda sala havia a possibilidade de ficar com um homem bonito, inteligente e rico. A oferta mais atraente levou cada uma delas a entrar na terceira sala.

Agora seria possível aceitar um homem bonito, inteligente, rico e viril. Tomadas pela empolgação, as mulheres não hesitaram em entrar na quarta sala, uma vez que em cada sala que avançavam percebiam acrescentar mais qualidades ao pretendente.

Nesta, o homem, se escolhido, seria bonito, inteligente, rico, viril, sensível, atencioso e carinhoso. E for assim... novamente movidas pela curiosidade chegavam a quinta e última sala onde havia apenas uma porta de saída.

Penso ser este o movimento de alguns que buscam encontrar um amor pleno em aplicativos, acabando por transformar esse meio em um fim. Entram numa engrenagem de eterna busca e por alguém com mais e mais atributos, perpetuando um jogo do nunca.

Nunca é para dar certo. Ninguém é suficiente para de fato ser escolhido. Tal busca torna-se um fetiche voyeur e exibicionistas de selfies, difícil de ser abandonado, desinvestido. Um hábito que pode se transformar em vício e conduzir a um final onde o único parceiro efetivamente presente não passa da tela de seu fiel celular.

Esse pode ser o destino de quem não sabe direito quem é, e nem o que está buscando. Por essa razão, é tão importante refletir acerca da condição humana real, não idealizando com quem possam desfrutar de uma relação verdadeiramente amorosa.

Quais as consequências emocionais para os mais carentes?

Pessoas com um posicionamento romanceado da vida, ou desiludidas, constroem em seu imaginário um futuro cor de rosa a um candidato a parceiro que NUNCA viram, muitas vezes sem nome, nem sobrenome. Relevam ou ignoram deles, mentiras grotescas.

Gradativamente o celular, com seus aplicativos mágicos, torna-se o companheiro fiel de pessoas sós, aplacando tristezas.

Ao mesmo tempo, porém, esse mesmo celular a faz lembrar daquilo que gostaria de esquecer, denunciando, a cada instante, a sua solidão.

Não é fácil para muitos serem comedidos em suas experiências. Essas são depositadas, aleatoriamente, pela pessoa carente, em qualquer um que lhe acene. Em caráter de urgência, um “Zé” ou uma “Maria” qualquer, passa a ocupar um lugar vital como se fosse a sua única chance de ser feliz.

Nesta ânsia de encontrar alguém, algumas pessoas não se protegem. Aceitam o convite de um estranho para ir em sua casa sem nunca antes terem conversado por voz e de saberem o mínimo, a respeito um do outro. Simplesmente transam, e frequentemente se decepcionam com a falta de aprofundamento da relação.

Esses casos nos quais as pessoas não expõem suas identidades, me remetem ao filme “O último tango em Paris” de Bertolocci, cujo desfecho é trágico.

A frustração decorrente do sumiço do pretendente pode provocar um sofrimento profundo naqueles que possuem um histórico de vida permeado por uma grande dor de rejeição e baixa autoestima. Alguns chegam a ter ideias suicidas quando compreendem que lhes falta atributos para serem escolhido, perdendo totalmente a esperança (clique no link e leia o artigo sobre suicídio).

Desconhecem o fato de ser comum um relacionamento iniciado virtualmente não evoluir, ficar restrito ao primeiro encontro ou nem acontecer.

É evidente que nenhum aplicativo tem o poder de criar estados graves de depressão. Porém, sucessivas experiências de abandono ou ruptura, podem agir como um fator desencadeante da desestabilização emocional e psíquica em pessoas frágeis, potencialmente propensas a desenvolver alguma doença dessa ordem.

Esse drama existencial assemelha-se à ideia de sintoma como uma formação de compromisso conforme a compreensão da psicanálise.

Medicina Mitos e Verdades. Categoria de Psicologia e Psiquiatria. Médico responsável: Prof. Dr. Marco Antonio Marcolin