Comer pouco faz engordar em dobro

Comer pouco faz engordar em dobro

Até que ponto são válidas as dietas de muito baixa caloria levando-se em conta que o organismo vai ter se adaptado àquela pouca quantidade de calorias? É por isso que algumas pessoas acabam engordando ainda mais após uma dieta de emagrecimento radical?

À medida em que o indivíduo perde peso, progressivamente, ocorre uma queda do metabolismo. Essa queda deve-se a vários fatores, sendo os principais a diminuição do peso que consequentemente leva a diminuição do esforço físico (esforço que antes sustentava os próprios quilos a mais), e a mudança do organismo para um modo "mais econômico".

Antigamente, esta forma de poupar energia era fundamental para a preservação da espécie já que o corpo precisava manter-se vivo mesmo quando faltava alimento. Com isso, ele se adaptava para poder sobreviver e seu metabolismo se modificava por instinto de sobrevivência. E é desta forma que nosso corpo funciona. Essas mudanças ocorrem mais rapidamente quando o indivíduo é submetido a regimes de muito baixas calorias como, por exemplo, os de spas. Porém, não dá para dizer um tempo fixo pré-determinado para que ocorra esta queda de metabolismo,mas pode, nesses casos, demorar de alguns dias a poucas semanas.

Quando o metabolismo iguala-se ao número de calorias ingeridas, o indivíduo para de emagrecer, o que equivale a um platô em um gráfico de evolução de peso X tempo. Para continuar emagrecendo, é necessário então aumentar o metabolismo (com atividade física e/ou medicamentos), ou diminuir a ingestão de calorias (com restrição da dieta e/ou medicamentos), o que logicamente se torna impossível caso a pessoa se submeta a uma dieta radical que carece de qualquer fundamento e, muito menos,se sujeite a jantar uma folha de alface. O que terá para diminuir nesses casos e continuar o processo de emagrecimento?

Por isso, é de fundamental importância que toda dieta seja feita lentamente e, indiscutivelmente, com acompanhamento médico durante esta fase e, principalmente, no processo de manutenção, evitando-se assim que o paciente atinja o seu platô em um curto espaço de tempo. As dietas elaboradas, organizadas à longo prazo e baseadas em uma reeducação alimentar são as que têm o maior índice de sucesso.

Um paciente que consumia 5.000 calorias diárias deverá ter redução gradativa, iniciando sua dieta com, por exemplo, 2.000 calorias e diminuindo aos poucos essa quantidade, evitando assim que atinja o seu "platô" precocemente, dificultando a manutenção do seu peso ideal.

Dietas padronizadas de baixa calorias, com cardápios pré-estabelecidos, xerocadas e distribuídas aos pacientes sem individualização, sem respeitar hábitos próprios e com grandes listas de alimentos proibidos, além de ser errada, não têm aderência satisfatória, e, normalmente, após duas ou três semanas,a pessoa acaba desistindo. Além do mais, embora até se promova a perda de peso, o peso inicial é facilmente recuperado.

Já as dietas de livre escolha supervisionadas, como a dieta dos pontos, onde o paciente tem acesso também a alimentos tradicionalmente proibidos nas dietas convencionais, promovem uma aderência maior. Esta abordagem, embora leve a uma reeducação alimentar e seja mais liberal em relação aos alimentos empregados, não deixa de ser, tecnicamente falando, uma dieta com diminuição de calorias.

Nas dietas corretas,a quantidade de calorias que a pessoa deve comer ao fim do tratamento para redução do peso deve ser consideravelmente menor que a quantidade habitual que a pessoa comia quando era obesa. Certamente, o retorno aos hábitos alimentares anteriores representará o retorno ao peso excessivo anterior.

As dietas com diminuição de calorias fazem parte de todo e qualquer tratamento ético e científico para a obesidade. É função do médico e do nutricionista tornar o regime mais tolerável e com ele proporcionar não somente a perda de peso, mas também todo um processo de aprendizado em relação à alimentação, que auxilie o paciente no processo de manutenção.

É importante citar que o tratamento de manutenção é imprescindível para o sucesso da dieta, uma vez que sem ele o índice de retorno ao peso original é de cerca de 90%. Para alguns pacientes que perderam muito peso, essa fase de manutenção, acompanhada periodicamente pelo médico, pode durar anos ou mesmo o resto da vida.

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Fonte: Capítulo de endocrinologia do livro Medicina Mitos e Verdades (Carla Leonel). Médico responsável Prof. Dr. Alfredo Halpern. Matéria do livro.