É muito comum as pessoas confundirem gripe e resfriado. Por terem sintomas parecidos, a gripe se tornou um rótulo genérico e errado para todas as doenças do aparelho respiratório, incluindo faringite, laringite, bronquite etc. Cada uma dessas patologias é causada por vírus diferentes, e tanto o tratamento como as consequências são distintas.

A gripe é causada pelo vírus Influenza, provoca febre alta, dor muscular, nas articulações, intenso mal-estar, além de tosse e/ou dor de garganta. Quando não é diagnosticada e tratada corretamente, pode desencadear complicações como a pneumonia.

Já o resfriado não provoca febre alta. Os sintomas são coriza, espirros e um pouco de mal-estar. Às vezes vem acompanhado de dor de garganta ou tosse intensa representando um quadro conjunto de faringite, laringite, bronquite, o que não significa gripe. Para caracterizar a gripe é necessária a existência do vírus Influenza.

A seguir, o infectologista Prof. Dr. Vicente Amato Neto esclarece as dúvidas mais frequentes assim como os principais erros relacionados ao tratamento de gripes e resfriados.

Posso tomar antibiótico para curar a gripe mais rápido?

Essa é uma das situações mais inadequadas que ocorrem no dia a dia. O agente causador da gripe é um vírus e antibiótico mata apenas bactérias. Tomar antibiótico para tentar curar uma gripe, além de não fazer efeito, pode trazer consequências pelo uso abusivo. Os germes vão se tornando cada vez mais resistentes e quando você realmente precisar tomar o antibiótico pode não ser mais eficiente para a cura. Além disso, existe o risco de efeitos colaterais como reações alérgicas, diarreia e doenças no sangue.

Também é errada a conduta de alguns médicos que indicam o antibiótico para prevenir complicações da gripe. O antibiótico só surte efeito, se junto com o quadro da gripe ou resfriado ocorrer, por exemplo, dor de garganta (faringite/amigdalite) com formação de pus (que é o que evidência a existência de bactérias). Nesse caso, o antibiótico será administrado para curar a faringite/amigdalite bacteriana e não a gripe/resfriado em si. É importante esclarecer que mesmo a amigdalite também pode ser de origem viral, e da mesma forma, não deve ser administrado antibiótico para o tratamento. A conduta neste caso é o uso de anti-inflamatórios e pastilhas para alívio da dor.

Existe remédio para vírus? Qual a diferença entre vírus e bactérias?

Vírus são minúsculos agentes infecciosos que se alojam e se multiplicam dentro das células do organismo. Cada tipo de vírus tem predileção por células de uma parte específica do organismo. No caso dos vírus da gripe e do resfriado, eles atacam as células das vias respiratórias. O maior empecilho no tratamento é eliminar o vírus já que quase não existem remédios para as doenças virais. A dificuldade em destruir o vírus está no fato dele se alojar dentro das células, e os remédios para matá-lo, às vezes, pode eliminar as próprias células do organismo. 

Já existe no mercado um medicamento seguro que age contra o vírus da gripe chamado oseltamivir (Tamiflu®), mas que surte efeito apenas quando tomado bem no início dos sintomas.  O Ministério da Saúde recomenda que todos os pacientes com sintomas de gripe e que façam parte do grupo vulnerável (gestantes, crianças pequenas, idosos e portadores de doenças crônicas) sejam medicados sem aguardar os resultados de exames laboratoriais ou sinais de agravamento da gripe. O antiviral é encontrado nas farmácias e também oferecido gratuitamente pelo SUS, mas há necessidade de receita médica.

Já as bactérias são germes, ou seja, organismos vivos que tem célula própria e por isso podem ser manipuladas em laboratório para a produção de antibiótico. Cada antibiótico tem características próprias e age destruindo apenas a bactéria para o qual foi formulado. O antibiótico produzido para a bactéria “X” não mata a bactéria “Y”.  Por isso, alguns antibióticos, mesmo na existência de bactéria, podem não fazer efeito.

O tratamento para a gripe é o mesmo do resfriado? Que tipos de medicamentos posso usar?

Sim. O tratamento tanto para gripe como para o resfriado se resume apenas em minorar os sintomas, ou seja: repousar, beber muito líquido, alimentar-se bem, tomar remédio contra dor de cabeça, febre e dor no corpo. Quanto aos antigripais, são compostos de substâncias para tosse e dor, e às vezes um pouco de cafeína, que além de aliviar a dor é estimulante. Mas nenhuma dessas medicações tem potencial de cura. O objetivo é apenas melhorar os sintomas até o ciclo do vírus passar. É importante seguir as orientações do seu médico, pois gripe mal curada pode evoluir para pneumonia e levar inclusive, ao óbito. Idosos e diabéticos merecem atenção especial.

Qual o tempo de duração da gripe?

Os resfriados duram cerca de três a cinco dias, geram apenas um desconforto que não chega a limitar as atividades diárias. A gripe é mais forte, dura em torno de uma semana, mas o paciente pode continuar sentindo ainda um pouco de mal-estar, tosse com expectoração (expulsão de catarro) ou dor de garganta. É a fase da convalescença que pode permanecer por mais duas ou três semanas.

Algumas doenças são parecidas com gripe. Portanto, se persistirem os sintomas por mais de uma semana, busque orientação médica, principalmente se você estiver grávida. O citomegalovírus e a toxoplasmose, por exemplo, se manifestam com sintomas semelhantes aos da gripe e pode provocar malformação no feto. Nesse sentido, é importante a ajuda do médico para diagnosticar a doença. Os medicamentos a serem utilizados para controlar os sintomas da gripe na gravidez devem sempre ter orientação médica. A automedicação pode causar sérios danos ao feto.

Qual o período de encubação do vírus da gripe? E qual a forma de contágio?

Existem mais de 200 tipos de vírus do resfriado e o vírus Influenza da gripe, são de três tipos (A, B e C) com vários subtipos. Todos eles são altamente contagiosos. Pessoas com queda de imunidade ou sistema imunológico fraco ficam mais propensas ao contágio. O ciclo da gripe e resfriados tem quatro fases:

Contágio
Partículas do vírus de pessoa infectada são transmitidas pela saliva durante o espirro, tosse ou mesmo pela fala.  A contaminação também pode ocorrer por compartilhamento de objetos de uso pessoal, como copos, talheres, guardanapo, lençol, batom etc.

Instalação do vírus no corpo
Após o vírus conseguir entrar no organismo através do nariz ou boca, começa o período de encubação que leva em torno de 24 horas, até o início dos primeiros sintomas.

Multiplicação
Já infiltrado nas células das vias respiratórias, o vírus passa a se multiplicar quando então, a pessoa já tem a certeza de estar gripado/resfriado pelos sintomas tornarem-se mais fortes.

Reação do corpo e cura
O sistema imunológico do organismo começa a luta para destruição dos vírus. O grau de imunidade de cada um é que determina se a gripe se torna um pouco mais curta ou se estende por mais uns dias, assim como o nível de gravidade.

Se não existe remédio para o tratamento das doenças viróticas, como o vírus é eliminado pelo corpo caso a pessoa esteja com a imunidade baixa?

Com ou sem remédios, o vírus da gripe é eliminado pelo corpo em no máximo 14 dias. Este é o tempo que leva para os anticorpos produzidos pela defesa de seu organismo localizar o vírus, e depois destruí-los e eliminá-los. Após este período, o que pode permanecer são as complicações decorrentes da gripe.

Pacientes que não se submetem ao tratamento adequado (repouso, ingestão de líquidos etc) e os do grupo de risco que possuem uma resposta imunológica mais fraca, tem uma maior chance desses vírus se propagarem e migrarem para o pulmão determinando o aparecimento da pneumonia. Como o pulmão é um órgão vital, e estando o paciente com seus mecanismos de defesa enfraquecidos, os vírus podem comprometer gravemente o órgão levando a pessoa à morte.

Posso pegar gripe por estar exposto ao frio?

Isso é um mito. Não é o frio que transmite os vírus da gripe/resfriado e sim a aglomeração de pessoas em lugares fechados comuns na época de frio que facilita a contaminação. Também, os vírus sobrevivem por maior tempo em temperaturas baixas e ambientes fechados o que colabora para o contágio.

As vacinas para gripe são eficazes? Qual é o tempo de imunidade?

Existe uma peculiaridade em torno da vacina contra a gripe. Ela tem de ser preparada para cada ocasião, pois cada epidemia é causada por um vírus específico. Uma dose protege durante 1 ano somente contra aquele vírus específico, tendo eficácia sobre 70 a 90 % das pessoas.

Os principais vírus que estão circulando este ano (2016) é Influenza A (H1N1), Influenza A (H3N2) e Influenza B (subtipo Brisbane). No outono e no inverno aumenta o número de casos de gripe por isso é aconselhável que a vacinação ocorra antes deste período. Tomar a vacina todos os anos também diminui as chances de complicações e morte.

Mas ATENÇÃO:  a vacina não é indicada para bebês com menos de seis meses e pessoas alérgicas a proteína do ovo.

Quanto tempo após tomar a vacina fico imunizado contra a gripe?

Segundo o Ministério da Saúde, em adultos saudáveis, a detecção de anticorpos protetores se dá entre 2 a 3 semanas após a vacinação, e apresenta, geralmente, duração de 6 a 12 meses. O pico máximo de anticorpos ocorre cerca de 4 a 6 semanas após a vacinação.

Fui vacinado contra a gripe e pouco tempo depois fiquei gripado novamente. A vacina não fez efeito?

Ninguém tem gripes repetidas em tão curto prazo. Como explicamos acima, são vários tipos e subtipos do vírus Influenza da gripe e que se manifestam em épocas diferentes. Com o passar dos meses, os vírus sofrem alterações, mas precisa de tempo pra isso acontecer. Existem centenas de vírus respiratórios além dos da gripe (Influenza) que podem circular no mesmo período, como por exemplo, o vírus sincicial respiratórios (brônquios e pulmões), adenovírus (resfriado) e é comum confundir os sintomas e achar que está gripado novamente.

Mesmo que você faça parte dos 10 a 30% dos casos em que a vacina não ofereceu imunidade, a gripe pode ter se sucedido por outro subtipo do vírus Influenza, mesmo assim, a recorrência do quadro gripal em curto espaço de tempo seria raríssima, já que seu organismo estaria mais fortalecido quanto aos subtipos de Influenza. Portanto, conforme explicamos acima, você deve ter sido afetado por outro tipo de vírus, mas não o da gripe.

Dados recentes apontam para a importância da vacinação rotineira de crianças até os 5 anos com o objetivo de proteção cruzada da população idosa. A explicação é simples: as crianças respondem melhor a vacina da gripe que os idosos, mas também contraem o vírus com maior facilidade. Portanto elas próprias acabam funcionando como reservatório do vírus para os idosos. Ou seja,  as crianças tem "o poder" de transmitir e espalhar o vírus. Diante deste cenário, se todas as crianças forem vacinadas, a circulação do vírus será menor e, consequentemente, irão existir menos doença e morte na população idosa por decorrência das complicações da gripe.

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Conteúdo do livro Medicina Mitos e Verdades (Carla Leonel). Capítulo de Infectologia. Médico responsável Prof. Dr. Vicente Amato Neto

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